Velho Chico

Xique Xique, Bahia, 02 de fevereiro de 2019.

Meu objetivo principal nesse trecho da viagem era navegar nas águas do Rio São Francisco a partir da cidade de Bom Jesus da Lapa (BA) até a Represa de Sobradinho (BA).

No papel existe, inclusive, uma hidrovia da bacia do médio São Francisco, desde Pirapora (MG) até Juazeiro (BA).

Interessante notar que as ponte sobre o Rio em Bom Jesus e Ibotirama (BA) contaram com enormes vãos para permitir a passagem de barcos altos e largos, indicando o planejamento de um transporte substancial pelo Rio.

Segundo o que apurei na Codevasf, ANTAQ e na Chesf, existe hoje transporte de mercadorias, inclusive grãos e de passageiros em toda a bacia do Rio.

Na prática, o que existe são pequenas embarcações destinadas à pesca e alguns roteiros “turisticos” (passeios de até 2 horas).

Passei por Bom Jesus da Lapa, Ibotirama, Igarité e Barra. Em nenhuma dessas cidades existiam quantidades substanciais de barcos. Os poucos que haviam pareciam um retrato anacrônico.

Apenas na cidade de Xique Xique encontrei algum transporte de passageiros, mas para distâncias muito curtas.

Distâncias mais longas (80 km) saem 1 vez por semana – até a cidade de Pilão Arcado. Um frete custa R$1000 em barco coberto. Consegui com muito custo uma canoa descoberta a R$250.

Nenhum sinal de transporte comercial, muito menos de mercadorias de grande porte.

Em um passado distante, existia um barco denominado “Vapor” (Benjamin Guimarães), que fazia o transporte de pssageiros entre Pirapora e Juazeiro.

O “Vapor” foi assim denominado por ser um barco movido a lenha. Barcos como ele também eram denominado “Gaiolas”.

Esse barco foi registrado na música Sobradinho de Sá e Guarabira, onde dizia: “Pra cima da Cachoeira o Gaiola Vai subir…”

O livro “Mochileiros nos anos de Chumbo”, de Sergio Aspahan e Márcio Godinho (que me presenteou seu livro ao saber da minha ideia de viajar pelo Rio) dedica várias páginas descrevendo a viagem que os autores fizeram pelo Gaiola. Esse livro é um excelente retrato do país no período militar.

Retomando a questão da ausência de transporte no Rio, pude apurar com os ribeirinhos que isso ocorre por 2 motivos principais: o elevado custo de transporte hidroviário quando comparado ao rodoviário e; as péssimas condições de navegação do Rio, que está extremamente assoreado e forma “croas” (bancos de areia) que impedem a passagem de barcos de grande calado.

Fiquei relativamente abismado com a afirmação das pessoas de que compensava mais o transporte rodoviário do que o hidroviário.

Isso ocorre porque sempre nos ensinaram (na escola, na Universidade, na televisão, nos livros) que o modal hidroviário é mais barato e gera menor impacto ambiental.

A verdade aqui na beira do Rio é que os barcos são obsoletos, consomem muito óleo diesel, sua construção e reparo é realizada de modo artesanal e precário e os barqueiros não são uma classe organizada (muito menos fiscalizada) como os caminhoneiros, o que gera muita insegurança ao transportador. Boa parte dos barqueiros que encontrei pareciam embriagados.

Ademais, o modal hidroviário depende mais das condições ambientais e de clima do que o rodoviário.

Com isso, ao se comparar o custo de oportunidade dos dois modais, é evidente a escolha pelo rodoviário. Vivendo e aprendendo. Como diria Carinhos Brown em “Magamalabares”, “os livros não são sinceros….

Assim, não foi possível navegar com segurança na bacia do médio São Francisco, o que muito me chateou.

Entretanto, o pior de tudo é constatar a sofrível condição do Rio e o abandono do próprio pelo poder público.

O Rio foi se deteriorando com o passar dos anos: entendo que o crescimento vertiginoso da agricultura e pecuária encaminhou ao Rio Grande volume de areia, a retirada da mata ciliar agravou o processo e a retirada da água para a transposição reduziu a capacidade do Rio de transporte de sedimentos. É uma tragédia anunciada.

Ainda Assim, muito me emocionou esses dias em contato com o Rio. Espero, sinceramente, que o Estado possa ter uma maior preocupação com o Rio, bem como trace um plano para revitaliza-lo.

Um Rio demora milhões de anos a se formar e a natureza o esculpiu cuidadosamente naquele lugar para permitir que a vida circule e siga seu curso. É uma coisa de Deus estar em lugares assim

4 comentários em “Velho Chico”

  1. Vai fundo Thiago. Essa viagem certamente vai marcar sua vida, como aconteceu com a minha que você mencionou. Grande abraço e pedal na estrada!

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