Sobradinho: Adeus, Adeus

Sobradinho, Bahia, 9 de fevereiro de 2019.

A música “Sobradinho”, de Sá e Guarabira (1977), marcou minha vida e o modo como ouço, aprecio, entendo, reflito e sinto as canções.

Essa música fez muito sucesso na década de 80 e me recordo claramente de questionar o motivo pelo qual aquela famosa letra falava da simples cidade em que nasci e morava (Sobradinho, no Distrito Federal).

Não sei quantos anos tinha desde a primeira vez que a ouvi. Entretanto, me lembro perfeitamente do dia em que, ao fazer uma pesquisa no “Google Maps”, li, acidentalmente os nomes das cidades de “Remanso, Casa Nova, Sento Sé e Pilão Arcado”.

Foi como encaixar a última peça de um quebra cabeça. Logo cantei: “Sobradinho, Adeus, Adeus…”

Tudo fez sentido. Não era Sobradinho (DF), minha cidade, mas sim Sobradinho, na Bahia.

“Tira gente põe represa” referia-se à construção da represa de Sobradinho.
“Remanso, Casa Nova, Sento Sé e Pilão Arcado”, outrora palavras sem sentido em uma música animada, foram cidades alagadas pelo Rio represado (São Francisco).

“O Sertão vai virar Mar” porque aquele lago artificial inundaria 4.214km2 de caatinga.

Fantástico!!

Aquela música retratou de forma brilhante os impactos ambientais e sociais de uma obra de grande magnitude.

Fez poesia do caos. Retomou uma frase atribuída a Antônio Conselheiro: “o sertão vai virar Mar” e acrescentou que “Dá no coração/ o medo que algum dia o Mar também vire sertão”.

Com isso, refletiu sobre a dicotomia entre desenvolvimento X sustentabilidade.

Deu uma aula de geografia, história, poesia, ciências sociais e meio ambiente em uma época em que conhecimento holístico era um conceito utópico dos livros de ciências humanas.

Ao ler e pesquisar sobre a musica conheci mais dois personagens daquela época, retratados no trecho “Pra cima da Cachoeira o Gaiola vai subir”.

“Cachoeira” refere-se a um local no Rio onde predominavam corredeiras e pedras. Às margens desse local moravam ribeirinhos que ajudavam os barcos a transpor esse obstáculo em manobras arriscadas e, muitas vezes, catastróficas.

Vencer a “cachoeira” também foi um dos motivos para que a Represa tenha sido construída naquela região.
O lago da represa garantiria maior fluidez a navegação do Rio e também permitiria que por ele trafegassem grandes cargueiros.

É importante ressaltar que, além das funções de energia, a Represa tinha como objetivo normalizar o fluxo de água do Rio, prevenindo enchentes e garantindo vazão constante a jusante (da represa para o Mar).

Já “Gaiola” refere-se aos barcos que faziam o transporte de passageiros pelo Rio. Alguns eram também denominados de “Vapor”, pois utilizavam lenha como combustível, exalando fumaça a medida que avançavam.

O mais famoso desses barcos era o Benjamim Guimarães, hoje ancorado em Pirapora (MG).

Com tudo isso em mente eu decidi: vou conhecer aquele lugar! Precisava reviver a história contada naquela música, contemplar aquela represa que inspirou uma canção tão incrível e sentir o âmago do São Francisco.

Também decidi que faria o trecho entre Sobradinho (DF) a Sobradinho (BA) na melhor forma que eu conheço de viajar: em minha bicicleta.

Assim, percorri de bicicleta trechos de Cerrado e Caatinga. Rasguei o oeste e norte baiano em velocidades lancinantes e hoje cheguei até a Represa tema de uma canção que tanto me ensinou e encantou por todos esses anos.

Transcrevo aqui a música Sobradinho:

” O homem chega, já desfaz a natureza
Tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar
O São Francisco lá pra cima da Bahia
Diz que dia menos dia vai subir bem devagar
E passo a passo vai cumprindo a profecia do beato que dizia que o Sertão ia alagar

O sertão vai virar mar, dá no coração
O medo que algum dia o mar também vire sertão

Adeus Remanso, Casa Nova, Sento-Sé
Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir
Debaixo d’água lá se vai a vida inteira
Por cima da cachoeira o gaiola vai subir
Vai ter barragem no salto do Sobradinho
E o povo vai-se embora com medo de se afogar.

Remanso, Casa Nova, Sento-Sé
Pilão Arcado, Sobradinho
Adeus, Adeus…”

Ilha da Fantasia, Represa de Sobradinho (BA)

Um comentário em “Sobradinho: Adeus, Adeus”

  1. Quando eu era criança, também tinha uma desconfiança até perceber que não éramos os únicos sobradinhenses no mundo. Recebi uma cartinha com remetente: Sobradinho/BA (minha mãe, empregada dos Correios, tinha me cadastrado para os filhos dos empregados se corresponderem). Ler sua história me fez lembrar disso. Parabéns pelos textos, não deixe essa habilidade se dissipar!

    Curtir

Deixe uma resposta para Lais Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s