Papo de ciclista

Para quem não é ciclista os conceitos de Cadência, potência, média de velocidade e altimetria lembram aquelas aulas de física.

Para aqueles que são, esses conceitos fazem parte do cotidiano e, muitos de nós, criamos verdadeira obsessão com eles.

Hoje vou falar um pouco sobre a cadência e de como a tenho desenvolvido até agora na viagem.

Por definição, cadência é a quantidade de repetições de um movimento em determinado intervalo de tempo.

No sistema métrico, utilizamos o “rpm” (rotações por minuto).
Portanto, se giramos o pedivela (braço do pedal) 90 vezes em um minuto, nossa cadência é de 90 rpm.

Por muitos anos pesquisou-se qual seria a cadência média ou ideal para o ciclismo (em suas diversas modalidades). Hoje há um consenso no meio acadêmico em torno de 90 rpm.

Evidentemente, essa é uma média e a cadência ideal de cada pessoa precisa considerar diversos aspectos individuais, como composição das fibras musculares, tamanho das pernas e resistência à fadiga etc.

Lance Armstrong foi multicampeão no ciclismo utilizando cadências muito elevadas quando comparadas aos demais ciclistas da Época.

A cadência média de Lance oscilou em sua carreira (80 rpm enquanto ainda estava no triathlon até 110 rpm no Tour de 2003).

Fruto de um ciclista extremamente competente, quase científico, que buscava ao máximo otimizar seus movimentos.

No livro “Lance Armstrong, muito mais que um ciclista campeão” ele narra um pouco sobre como trabalhava sua cadência e como isso influenciava, inclusive, as decisões de como sua equipe trabalharia em determinada prova ou etapa.

Em muitos casos, a equipe optava por uma configuração compacta da relação da bicicleta 50×34, utilizando pedivela 175 mm.

Desse modo, os gregários poderiam andar junto com Lance em cada troca de marcha.

Em outros casos, eles optavam por subir utilizando a coroa menor da bicicleta, evitando pesar a relação e garantir que Lance atacaria a ponta do pelotão com todo gás.

Explicando: em geral, as equipes utilizam relações mais pesadas (54×39) e pedivela 172.5 e mesmo em subidas mais inclinadas, os ciclistas clássicos utilizavam a coroa maior (cruzando a relacão).

Os ciclistas clássicos atacavam as subidas levantados do selim, utilizando o peso de seu corpo para “martelar” os pedais e, assim, sua cadência oscilava entre 55 a 70 rpm nessas subidas.

Lance muitas vezes subia a 110 rpm, encaixado no selim e com as mãos “cravadas” nas manetes.

Como ciclistas clássicos e contemporâneos de Lance eu cito Jan Ullrich e Marco Pantani.
É extremamente interessante comparar os vídeos dos duelos entre esses ciclistas clássicos, fazendo muita força e pedalando fora do selim, com um concentrado Lance, obcecado por pedalar encaixado no selim e girar os pedais como um ventilador.

Emblemáticas e didáticas a subida do Mont Ventoux, no ano 2000 entre Lance e Pantani, também conhecido como “Pirata” e a subida do Alp D’Huez entre Lance e Ullrich, em 2001.

Os vídeos estão no YouTube.
Estou escrevendo tudo isso porque considero a cadência uma medida essencial no ciclismo.

Pedalar “pesado” faz aumentar a fadiga muscular, mas poupa nosso esforço cardíaco, ao passo que pedalar mais leve exige grande demanda de sangue e oxigênio (aumentando a frequência cardíaca e o gasto calórico).

Portanto, definir a cadência ideal para cada ciclista, além de questões fisiológicas precisa considerar a característica do treinamento do indivíduo.

No meu caso, que vou estou fazendo uma viagem com médias de distância que variam de 80 a 150 km por dia, não fazia sentido demandar grande esforço muscular em detrimento do aeróbico, posto que sou relativamente novo, estou em boa forma física e teria disponibilidade de alimento durante o percurso.

Inicialmente, planejei executar uma cadência média de 90 rpm. Pretendia subir mais leve e usar mais força para fazer alta cadência no plano (muitas vezes 110 rpm), onde meu pedal flui melhor.

Em momentos de muito vento planejei executar uma cadência de 80 rpm.

A experiência da estrada tem mostrado um planejamento muito bom no pedal. Ainda que muitas vezes eu tenha vontade de subir mais pesado e rápido, tenho controlado o impulso.

Utilizo a coroa menor, assim reduzo também o desgaste da relação da bicicleta e guardo potência muscular para o plano.

Entretanto, minha cadência média tem sido de 100 rpm. Tenho me sentido muito bem pedalando assim, especialmente em trechos planos.

Acho que a escolha da relação compacta (50×34) e 11×28 (grupo 105 de 11 velocidades) foi acertada pois consigo subir mantendo a cadência de 90 rpm e, mesmo em trechos de alta velocidade, não “perco o pedal” ou seja, fico girando em falso.

Por fim, entendo que manter uma cadência mais constante durante o pedal faz bem para o corpo, mas muitas vezes deixa de estimulá-lo.

Tenho pensado sobre alternar mais a cadência durante a viagem, de modo a que o corpo trabalhe fora da zona de conforto.

Agradeço ao amigo Henrique Ebert pela ajuda com o texto.

Grande abraço a todos e obrigado por acompanhar

2 comentários em “Papo de ciclista”

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