Inteligência emocional

Pedalar na estrada é a melhor parte da viagem. Gosto de estar em cima da bicicleta, de sentir o vento no rosto, a potência das pernas.

É gratificante ter um condicionamento físico que me permite varrer grandes distâncias diariamente.

Mesmo assim, encarar tantas horas de estrada por muitas vezes é árduo para o corpo e, principalmente, para a mente.

Nosso corpo é uma máquina incrível. Treino, alimentação, hidratação e descanso, nos permitem ganhos constantes de condicionamento.

Esse condicionamento é coordenado pela mente, responsável por avaliar o contexto a nossa volta e executar as ações planejadas.

A equação que garante condicionamento e equilibro da mente é um segredo nem sempre fácil de ser desvendado.

A mesma mente que nos permite executar feitos incríveis, mina nosso ânimo. Em certos momentos somos tomados pelo medo e até por uma paralisia.

A mente está sempre trabalhando para nossa segurança, ainda que uma parte de nós assuma riscos infantis.

O livro “Inteligência Emocional” (Daniel Goleman) credita esse pensamento de segurança a um mecanismo evolutivo de nossa espécie.

O medo que nos assola a cometer ações nem sempre racionais é denominado pelo autor como sequestro emocional.

Por exemplo, quando saio para um pedal de 200 km percebo que a mente mina meu ânimo, ressalta os perigos.

O Sol nem esquentou e estou pensando em desistir, pedir um uber no próximo quilômetro onde houver sinal de celular.

Nos piores dias penso se tenho limite no cartão de crédito pra pedir um helicóptero mesmo. E estou falando sério.

Se insisto em fazer esse trecho, quando o Sol esquenta e as pernas cansam, começo a avaliar possibilidades, criar estratégias para vencer a distância.

Sou tomado por uma energia que sequer imaginava ter. Minha mãe diria que é o resultado das orações e de modo algum refuto isso.

Aquele mesmo mecanismo de evolução que antes me recomendava desistir do trecho e ficar em segurança, agora trabalha a favor de completar aqueles insanos 200 km, pois não completa-los seria um risco ainda maior.

Acho curioso: em alguns momentos desse trecho tenho a sensação de que um vento mais forte pode me fazer tombar da bicicleta, tamanha a fraqueza.

Entretanto, o que mais acontece é chegar no destino de peito estufado, bufando, com sangue no olho, cuspindo fogo.

Já teve até um dia difícil que quando cheguei no destino olhei no GPS qual a distância para a próxima cidade, tamanha a “moral” quando cheguei.

Graças a Deus não cometi a sandice de ir e fui me alimentar e descansar para estar firme no dia seguinte.

Tento criar estratégias para convencer minha mente a executar pedais mais longos ou mais intensos (em trecho curtos).

A primeira estratégia é sempre ressaltar as coisas legais que encontrarei no destino: praia, alguém que eu conheça, maior proximidade a um destino que me interessa.

No pedal mais longo que já fiz (280 km) até tentava pensar que ia postar no instagram sobre aquele dia, que ia me orgulhar o resto da vida daquele pedal. Pode até parecer besteira, mas não é.

Claro que não postei sobre esse pedal, nem fiquei me gabando (até hoje, vai…).

Em alguns dias eu deixo o garmin indicando apenas o mapa do percurso, sem olhar quanto já pedalei, quanto falta para chegar, qual a média de velocidade.

Em outros dias funciona melhor me concentrar nesses dados, não deixar a velocidade baixar muito nas subidas, calcular quanto tempo falta pra acabar.

Em alguns momentos estabeleço metas: fazer 10 km a 30 de média (ou seja, em 20 minutos), depois descansar 5 km.

Claro que esse descanso nunca acontece. Quando chego aos 10 km tento falar: vamos fazer mais 5km agora e aí descansar.

Também tento associar distâncias a lugares conhecidos. 50 km: distância da minha casa até Formosa.

Daí penso: se andar mais 31 km irão faltar 19 km (distância da casa do Daniel até a minha). Se estiver cansado ligo pra ele me buscar.

Daí quando chego a 19 km de distância da cidade é fácil, tô quase em casa. Falta só subir o DVO (um trecho temido por muitos ciclistas perto de onde moro).

Quando a coisa fica feia mesmo, prometo que vou comer um pote de sorvete napolitano (com Coca Cola) quando chegar.

São táticas que ajudam a tirar o foco do problema e concentrar na solução do mesmo.

Também é uma conversa comigo mesmo. Espanta a solidão, muitas vezes me diverte e quebra o gelo.

Obrigado a todos que acompanham.

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