Itacaré – Ilhéus

Itacaré é uma cidade alto astral, povoada por gente jovem, animada e bem boêmia.

Vi um turismo de “balada” pela primeira vez (fora as capitais). Tocava música trance na praia. Era um clima libertino. Parecia carnaval.

Isso contrastava com a presença de muitos surfistas, praticantes de Yoga e meditação.

Todas as tribos se respeitavam ali. Conheci um fotógrafo de surf muito bacana, que estava ensinando ao filho o nome das manobras que os surfistas executava na água.

Foi bacana ver aquela cena. Eles estavam em harmonia ali e o garotinho sabia o nome de todos os surfistas.

Quando estava saindo para Ilhéus percebi que o pneu estava murcho. Tentei encher em uma borracharia e furou de vez.

Depois, em menos de 10 km furou mais 3 vezes. Por sorte o último furo foi na frente de um posto de gasolina.

Um senhor veio conversar comigo e me disse uma coisa que me chamou muita atenção: na estrada é nossa responsabilidade, né? Não dá pra culpar ninguém.

Apontei o dedo pra ele e disse: exatamente!! Sempre penso isso, é uma grande reflexão que tenho. Mas como você chegou a ela?

Pois é, “moral”, já fui caminhoneiro e agora trabalho cortando palmito. Não entendi nada, mas captei a mensagem. Nem sempre as pessoas querem ou podem nos contar tudo.

Muitas vezes queremos culpar alguém pelas coisas que são errado. No caso do pneu eu logo falo: poxa, o cara não fez o remendo direito, esse pneu tá ruim, estrada suja…

A verdade 1: provavelmente eu que fiz o remendo, não conferi se o pneu estava cheio o suficiente e não me atentei em desviar de algum pneu velho na estrada.

A verdade 2: pneus furam. A gente remenda, enche e continua pedalando. Adianta nada saber de quem é a culpa. Talvez só gaste energia mesmo.

Isso me fez pegar o Sol de 11 horas e parei para lanchar em uma lanchonete de beira de estrada. O rapaz que trabalhava lá foi muito bacana comigo. Perguntou que música eu queria ouvir e disse que eu ia comer o melhor misto com ovo e suco de goiaba da Bahia.

Pedi Chiclete com Banana pois, claro, eu estava na Bahia. Aí ele me perguntou se eu ia dormir em Serra Grande ou se ia pra Ilhéus. Eu desconversei, disse que não sabia.

Ele falou: essa praia é Linda, você tem que tirar uma foto com a bicicleta lá no mirante.

Aí eu abri aquele sorriso de quem sabia que dali para frente o pneu não ia furar, que a Praia ia ser linda.

Não deu outra: do mirante era possível ver uma linda praia, que se estendia por uns 5 km. E mais, estava bem na Maré baixa.

Encontrei um rapaz que disse que veio correndo pela praia e, para meu espanto, ele disse que era de Brasília. Falou que correu por 14 km e que dava pra passar pelos mangues que desaguavam no Mar sem molhar os joelhos.

Concatenei o Tico e o Teco e falei: vou descer e pedalar na Praia por uns 2 km, pois tinha uma barraca e imaginei que teria por onde voltar até a estrada.

Pedalei por 30 km na praia! A maré havia secado e a areia estava durinha. Foi sensacional. Cheguei até as praias do Norte de Ilhéus.

Culpa dos pneus furados, que atrasaram minha viagem e me permitiram chegar ali na melhor hora para pedalar. Parafraseando Heriquinha, “Deus é muito top”.

Ilhéus é uma cidade que se desenvolveu com a exploração do Cacau e seus chocolates são famosos.

A cidade foi eternizada por Jorge Amado, que nasceu na cidade vizinha, Itabuna, mas morou e escreveu parte de sua obra em Ilhéus.

Existem vários pontos da cidade que contam a relação do escritor com a cidade e como ela o inspirou. Só por isso já vale a pena visitar a cidade.

Eu me lembro da cena da novela Gabriela, Cravo e Canela, em que Regina Duarte sobe em um telhado para pegar uma pipa, levando ao delírio os homens do local.

Mas Jorge Amado é, para mim, sinônimo de Capitães de Areia, livro que aborda a vida de jovens de rua nos subúrbios soteropolitanos.

Gosto da descrição dos meninos:

Vestidos de farrapos, sujos, semiesfomeados, agressivos, soltando palavrões e fumando pontas de cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas…”

Obrigado a todos que acompanham

2 comentários em “Itacaré – Ilhéus”

  1. Adorei esse post. Sua reflexão sobre o pneu furado é uma experiência de resignação muito legal, madura. “O pneur furou… paciência, ora. É a vida, acontece, vamos seguir em frente.” Para mim, perceber que os acontecimentos que dão “errado” muitas vezes me levam a viver experiencias incríveis e inesperadas, como o seu desvio de caminho pela praia, é um convite a gratidão. Estou tentando exercer isso, atualmente. Agradecer a tudo, ao que dá certo e ao que dá errado (dentro das minhas expectativas, é claro). Porque e vida é sempre generosa de oportunidades e possibildades, quando podemos ser gratos pelo que nos chega e abraçar alternativas interessantes… Tenha uma ótima viagem! Torcendo muito por você.

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  2. Deus é muito TOP! =)
    Ele sabe exatamente o momento ideal para cada coisa em nossa vida.
    Sua viagem é muito inspiradora.

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