Perdido num planeta abandonado

Após 4 meses de viagem percebi um desgaste físico e mental. O cansaço físico tem razões óbvias. Já o cansaço mental tem várias justificativas.

Viajar sozinho é um exercício de compreensão de si próprio. Precisar do seu corpo e mente para poder se deslocar potencializa essa compreensão.

Estar sozinho com seus pensamentos, razões e motivações cansa, pois estamos sempre raciocinando.

Meu amigo Adriano Distraído me disse que “esse é um cansaço existencial” e que é “o preço de viver o próprio pensamento”.

Pra me animar, disse ainda que “é o cansaço de quem não se cansa de viver do seu jeito”.

Foram sábias observações de um rapaz perspicaz e que já viajou boa parte do globo em sua bicicleta. Atualmente, ele reside em Pirenopolis, onde esta escrevendo seu livro.

Além disso, creio que esse cansaço tem relação com a troca constante de hospedagem, a necessidade parecer sempre entrar com um elefante em uma sala de cristais (bicicleta) e o encontro com pessoas que nem sempre são legais (mesmo sendo uma pequeníssima parte das pessoas que cruzam meu caminho).

Minha hospedagem em Vitória foi emblemática: chegando no hostel conheci a Ângela, uma ciclista austríaca e, por coincidência, estávamos indo para o mesmo hostel.

Quando chegamos, não fomos bem recebidos, mas estávamos cansados e decidimos ficar ali. Foi um parto conseguir arrumar um local para as bicicletas. O lugar era imenso, mas…

Depois ouvimos uma sequência de “não pode”, nada pertinente a um hostel. Não podia nem lavar roupa.

Ficamos lá dois dias e foi muito interessante compartilhar aqueles momentos com ela.

Meu alforge (mochila que levo na bike) descosturou e eu fiquei lá meio indignado e sem saber o que fazer. Ela falou: pare de drama, passe uma fita isolante.

Achei curioso em como a gente faz tempestade num copo de água quando fica contrariado. Passei a fita e depois levei no sapateiro. Problema resolvido.

Ângela era muito ágil e não via problema em nada. Saia pra pedalar meio dia, não estudava o caminho que ia fazer. Era até engraçado o contraste comigo, que quase sempre faço tudo como planejado.

Ela até reclamou que eu a estava tratando como criança, porque ficava toda hora dando conselhos. Foi uma amizade massa! Amizade por amizade, por companhia e por afinidade.

Apesar de meio doida, ela é assistente social e tem uma visão crítica sobre a abordagem do Estado com relação às pessoas em situação de rua. Discutimos por mais de uma hora sobre isso.

A situação no hostel ficou insustentável e decidimos ir embora (eu pro Sul e ela pro Norte). Eu jamais havia saído de um lugar sem me planejar, sem saber o roteiro. Naquele dia eu não tinha nem bateria no GPS.

Nem sempre na vida podemos ir embora e deixar o que nos incomoda pra trás. Aquele dia podíamos e foi uma decisão muito massa. É um sentimento de liberdade que poucas vezes podemos ter na vida: simplesmente virar as costas e ir embora.

Mas essa decisão cobrou seu preço. Como eu não sabia pra onde ir fiquei completamente perdido na saída de Vitória.

Eu ia para Marataízes, mas acabei pegando a BR 101 (sentido Rio de Janeiro) e depois errei um desvio e peguei a BR 262, que vai pra Belo Horizonte.

Quando percebi, voltei para trás e fui até o local onde havia errado. Parei a bicicleta e fiquei pensando no que fazer.

Não via sentido em ficar na BR 101, não queria passar pelo Rio de Janeiro e me deu uma solidão imensa. Fiquei bem perdido. “Perdido num planeta abandonado…”

Depois de pensar um pouco decidi não ir para o Rio, mas sim pra Belo Horizonte, pois tenho família lá.

Precisava de ver rostos conhecidos, pessoas familiares. Em síntese, estava carente, vai. Estava quase chorando e querendo aconchego de casa, essa é a verdade.

Decisão tomada, parei no começo da subida da serra do Mar, pois já estava à tarde. Assim, poderia me organizar e programar como seriam os trechos seguintes.

Cuidei de me alimentar bem, alongar bastante e dormir bem cedo, pois os dias seguintes seriam de muita subida.

Obrigado a todos que acompanham