Procurando uma agulha num palheiro

O trecho entre Itamaraju e Pedro Canário (passando por Teixeira de Freias) mexeu com minhas emoções e me fez entender claramente o receio que estava de retornar à BR 101, às pousadas e postos de beira de estrada.

Para mim, rodovias com acostamento são mais perigosas do que rodovias sem acostamento.

Por dois motivos: o acostamento quase nunca é bom (além de conter muita sujeira – caco de vidro, pedaços de pneu, várias garrafas plásticas etc. – que aumentam muito o risco de queda e furo) e; os motoristas ficam menos tolerantes com ciclistas na pista.

É um exercício de convivência: o ciclista precisa entender que nem sempre o veículo pode desviar e o motorista precisa entender que esperar 5 segundos para ultrapassar o ciclista não vai fazê-lo perder um rio de dinheiro. Enfim, sobrevivi a esse trecho, graças a não cuidadosa de Deus.

Cheguei extenuado e tenso e sentei no chão de uma espécie de rodoviária de beira de entrada de Cidade.

Um taxista parou pra conversar comigo e perguntou gentilmente se eu tinha vindo da Bahia pela BR 101 e me disse que dali para frente a rodovia ia melhorar.

Depois de algum tempo ele me disse: queria entender o que você está fazendo ou procurando por aqui. Você é de Brasília, deve ter casa e família e tá aí sentado na beira da estrada.

Disse a ele que havia me feito essa pergunta o dia todo. Mas que estava feliz, que a estrada tinha sido dura, mas que eu estava bem alimentado.

Ele falou que eu era corajoso e eu respondi que corajoso é quem sai cedo pra trabalhar todo dia, muitas vezes carregando uma lata de amendoim na cabeça.

Não sei porque, mas eu sempre me lembro dessa cena que vi em algum trecho da estrada.

Já li sobre essa pergunta no livro “Dias Bárbaros – Willian Finnegan”. Ele relata que estava na Ásia ( procurando ondas que ninguém havia surfado) quando um nativo falou que ele era doido.

Posto que nos EUA havia alimento, emprego e assistência de saúde e ele estava em um lugar que faltava alimento, não havia emprego e sequer podia beber água de qualidade.

Possivelmente, essa deve ser uma pergunta ou observação muito recorrente.

Não tenho resposta ou argumento para rebater. Mas muitas vezes estamos procurando uma agulha num palheiro.

Muita gente deve encontrar!

Obrigado a todos que acompanham