As formigas e a chuva

Cheguei em Belo Horizonte em um domingo à noite e fiquei em um hotel muito bom. Claro, comi uma pizza. Domingo à noite combina com pizza!

No dia seguinte, fui para a casa dos meus familiares, que me receberam com muito carinho.

A reação dos meus tios em saber que eu tinha chegado ali de bicicleta e que estava na estrada há mais de 4 meses na estrada foi curiosa. Meu tio disse: é… tem muito perigo nessa estrada. Sozinho? (Até acho que duvidou).

Minha tia Márcia disse: sua mãe entregou pra Deus, né? É isso mesmo! Cada um tem seu caminho. É entregar e confiar.

Me surpreendeu muito essa reação dela. Quis saber sobre as pessoas que encontro, como elas me recebem, perguntou se eu estava cansado de gente.

Foi a primeira vez que alguém não me fez as “perguntas de sempre”. Acho que ela me entendeu ou disfarçou muito bem.

Não me encanto por cidades grandes e BH não foi diferente. Muito trânsito, barulho, gente andando pra todo lado.

Quando vejo as pessoas andando nas grandes cidades sempre me lembro da música Mochileira, de Almir Sater:

“Moça eu não vou precisar ler na sua mão

Pra saber que você não vai voltar

Pra vida maluca das pessoas

do mundo

Das formigas tentando se esconder da chuva…”

Sinto que as pessoas andam em círculos. Correm, aceleram seus carros e param nos engarrafamentos. Perdem tempo com coisas banais, quase sempre discutindo umas com as outras.

Fiquei me lembrando no meu trabalho antigo e em como a gente gastava tempo e energia brigando uns com os outros.

Talvez nosso principal problema de trabalho seja as relações interpessoais. Todo trabalho tem aquela pessoa que quer aparecer as custas do esforço do outro, aquele fofoqueiro/a e por aí vai.

Sempre que chego em cidades grandes também me lembro do filme “in to the wild”. Há uma cena onde o Cris chega em uma cidade e fica olhando para as pessoas indo para seus trabalhos, imagina a si próprio em um terno, com o cabelo arrumado.

É uma cena emblemática e que nos faz refletir sobre nossas escolhas diárias. Longe de querer ser como ele, mas entendo como nunca aquela cena.

A trilha sonora daquele filme é fantástica, especialmente a música “Society”. Se eu tivesse que escolher uma música em português para aquela cena seria:

" Eu me sinto um estrangeiro 
Passageiro de algum trem 
Que não passa por aqui 
Que não passa de ilusão..."

A Revolta dos Dandis – Engenheiros do Hawaii.

Obrigado a todos que acompanham