Solidão A-pavora

Os meus dias na Fernão Dias foram de muita solidão e introspecção. Estava sempre frio e conversei com pouquíssimas pessoas nesse trecho.

Entretanto, não me senti em risco e estava relativamente sereno. Simplesmente acordava, tomava café e saia para pedalar.

Inevitavelmente, tinha a sensação que pedalava e não saia do lugar. Isso ocorria porque o lugar que dormiria em um dia era quase sempre igual ao do dia anterior, as pessoas pareciam as mesmas, as conversas então…

Apesar de falar assim, o povo mineiro me recebeu muito bem. Pela primeira vez eu não me sentia um estrangeiro dentro do meu país ou mesmo um forasteiro.

Abandonei o “bom díííía” e falava “bom dia”, como um típico brasiliense, sem que ninguém me estranhasse.

Explico: no nordeste eu percebi que as pessoas que cruzava na estrada eram mais simpáticas comigo quando eu as saudava com um “bom dííía” bem potiguar.

Quando falava “bom dia”, elas já sabiam que não era nordestino. É muito ruim não se sentir parte de um lugar.

Curiosamente, em alguns momentos em Minas eu falava “bom dííía” só pra ver a reação das pessoas.

Sempre lembrava da música do Belchior e fico pensando no que nele sentia quando escrevej:

“Eu me lembro muito bem do dia em que eu cheguei
Jovem que desce do norte pra cidade grande…”

Ainda hoje existe muito preconceito contra o nordestino no sul/sudeste, mas acredito que grande parte das pessoas simpativaza com meu sotaque nordestino.

Eu adoro o nordeste, adoro o calor, as pessoas, as comidas, as praias quentes e também a velocidade de como as coisas acontecem lá. O sudeste é muito acelerado. Nem sempre tão produtivo.

Nesses dias frios eu me lembrei muito do nordeste. Há uma alegria de viver ali, uma simplicidade, um aconchego.

Voltando…Outra questão relevante para não me terem como fotasteiro era a proximidade com BH e São Paulo (muitos acreditavam que eu era dessas cidades). Também, há muitos ciclistas que passam por esse caminho para ir até Aparecida.

Importante falar que esse trecho marcou uma mudança significativa com relação aos perigos da estrada. Até então eu me preocupava muito com segurança. Até achava que estava um tanto paranóico. Mas nossa vida é o bem mais precioso que temos.

Como essa estrada era privatizada, via câmeras de segurança por todo lado, além do carro de ronda da concessionária e muito movimento. Isso me trouxe menos preocupação com relação aos assaltado etc.

Por outro lado, o intenso tráfego de caminhões criou uma tensão muito grande. Os caminhões pareciam nunca parar. Assim, passei a me preocupar muito com os veículos.

Buscava andar sempre no acostamento, mesmo esse sendo muito ruim e com muita sujeira. Deus me ajudou muito e não tive nenhum furo, inacreditavelmente.

Mas o principal problema desse acostamento eram os canais de desvios de águas pluviais. Como a água precisa escorrer da pista para o acostamento, é feito um “pequeno” corte no asfalto (do acostamento) para facilitar o escoamento.

Para uma bicicleta (mesmo mtb) esse é um obstáculo difícil. Desviar deles significava invadir a pista, o que não era uma opção muito sensata. Acabava passando por cima deles mesmo.

A tensão pelos veículos e pelo acostamento ruim, aliada ao fato de eu parecer pedalar e não sair do lugar minou muito o meu prazer de pedalar.

Estava como um escoteiro (sempre alerta) e muito concentrado. Divagava menos o pensamento e acelerava tudo que podia.

Mesmo assim, me senti feliz de estar ali. A frase que martelava minha mente era “passamos pelo que temos que passar.

Eu acredito precisava estar ali, enfrentar meus medos, seguir em frente, sair do outro lado.

Como diria a música do Caetano: “Solidão A-pavora…”. Mas nunca estamos sozinhos nesse mundo de Deus e a solidão também ensina.

Logo eu que sempre acreditei que não precisava muito de pessoas, agora corria para encontrar amigos, reciprocidade, empatia.

Pra encerrar, deixo mais um trecho de Belchior:

A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia
e pela dor eu descobri o poder da alegria
e a certeza de que tenho coisas novas
coisas novas pra dizer…”

Obrigado a todos que acompanham