São Paulo – Curitiba

Saí de São Paulo com o coração bem apertado e indeciso. De fato, não queria deixar a cidade, mas era preciso seguir viagem e o trânsito no final de semana seria menor.

Além disso, planejava encontrar minha mãe e Aníbal em Curitiba, no final de semana seguinte. Pretendia pedalar em média 80 km por dia e recuperar o corpo aos poucos.

No entanto, os dias de descanso em SP fizeram muito bem para meu emocional e minhas pernas: acabei pedalando muito mais do que o planejado.

Foram mais 3 dias na estrada. Eu parecia estar em uma contagem regressiva e queria chegar logo, deixar aquele frio para trás, bem como as caras e nada hospitaleiras pousadas de beira de estrada paulistanas.

Ademais, só pensava em quando encontraria novamente o Mar. Nesses dias por Minas e São Paulo me atentei para um detalhe geográfico curioso: nem sempre é possível ver o nascer e o pôr do Sol em regiões mais acidentadas.

Isso ocorre porque quando focamos o horizonte, acabamos encontrando montanhas. Em grandes cidades, vemos prédios mesmo.

É raro ver o Sol no horizonte. Não sei como deram o nome de uma cidade de Belo Horizonte. Curiosamente, eu achei lindo o Mar de prédios no entardecer da capital paulista.

Entre SP e Curitiba há duas grandes serras: Serra do Café (15 km descendo) e Serra do Azeite (25 km subindo).

Hoje, a rodovia Régis Bittencourt é duplicada e, mesmo assim, há muitos acidentes nesses trechos.

Descobri também que vários caminhões já pegaram fogo em razão do superaquecimento (de motor e freio), segundo os caminhoneiros que encontrei.

Na descida da Serra do Café meu pneu furou e, como achei muito perigoso o acostamento, desci quase 1 km com o pneu furado mesmo, até encontrar um lugar seguro para parar.

Esse local acabou sendo um posto de apoio da concessionária que administra a rodovia (Artetis).

Enquanto trocava o pneu, um funcionário se aproximou e me disse que eles aconselhavam os ciclistas a não descerem aquele trecho, mas que eu poderia descer.

Não pensei nem duas vezes e perguntei: como vocês podem me ajudar a ir ate o pé da Serra? Aquele pneu não furou ali de graça.

Ele me disse: a gente coloca a bike no guincho e eu te levo. Seu nome era Flávio e, além de ser muito educado comigo, me deu um conselho que me ajudou muito: pedir apoio da concessionária na subida da Serra do Azeite.

No dia seguinte, assim que comecei a subir, encontrei o posto de apoio da Artetis.

Parei a bike e falei: oi! Bom dia! Sou o Thiago, estou viajando de bike e o Flávio me deu apoio na descida do Café. Ele me aconselhou a pedir apoio aqui também.

Ser amigo do Flávio era importante. Na hora me falaram: ah, você conhece o Flávinho, que massa! Vamos levar você. Tome um café e aguarde que vou passar o rádio pro guincho.

Fiquei muito impressionado com os perigos daquela Serra e agradecido a Deus daquele pneu ter furado, pois eu jamais teria parado ali. Souza Lopes diria que Flávio foi o anjo de Deus daquele dia.

Com quase 40 km de carona foi moleza chegar na fria capital paranaense.

Obrigado a todos que acompanham