Goiânia – Pirenópolis

Voltar a pedalar no Planalto Central foi bem bacana, pois tenho um carinho especial pelo Cerrado. Era nítido que a seca se aproximava de modo lancinante. Ar seco, vegetação acinzentada.

Saí de Goiânia pela BR 060 e me lembrei das inúmeras vezes que havia feito aquele trajeto. Me veio na mente o filme “De volta para o Futuro”, pois a estrada parecia uma cena do passado. Como se fosse igual todos os dias.

Era inevitável lembrar da música da Adriana Calcanhoto:

“Eu ando pelo mundo

E os automóveis correm

Para quê?”

Claro que as pessoas estavam indo trabalhar, viajar, visitar seus parentes, amigos, namorados/as. Havia um sentido em estarem em seus carros, assim como havia estar em cima da bicicleta.

A estrada era movimentada e veloz, mas não agressiva, como no Sul. Podia até dizer respeitosa. Entretanto, do acostamento, podia sentir a empáfia e falta de empatia brasiliense. Sérias e carrancudas, as pessoas pareciam donas da estrada, sempre mais importantes que as outras.

Felizmente, após 40 quilômetros, deixei a BR 060 e pedalei alguns quilômetros na rodovia Belém – Brasília, pouco movimentada naquele trecho. Fiquei pensando que havia chegado no final daquela estrada e nas coisas que aconteceram comigo no Pará.

Após os dias de descanso em Florianópolis, estava flutuando na pista. Girava os pedais com facilidade e consistência, mas não acelerava. Havia empolgação de chegar em Pirenópolis, mas não gana de pedalar, sangue no olho, como dizem os ciclistas. Estava “na ponta dos cascos e fora do páreo”.

Quase chegando em Planalmira, passei por um local onde havia bastante terra no acostamento e me desequilibrei da bike. Foi a primeira vez que isso aconteceu na estrada. Graças a Deus, controlei e segui pedalando.

Na sequência, encontrei dois senhores e parei para conversar com eles. Estavam fazendo uma peregrinação e já haviam caminhado 50 km aquele dia. Iriam até a cidade de Muquém, fazer um romaria. Foi a primeira vez que encontrei esse tipo de viajante.

De Planalmira até Pirenópolis foram 25 quilômetros de muitas lembranças. Esse foi o trecho final da minha primeira viagem de bicicleta, em janeiro de 2014. Aquele dia sofri bastante, mas estava muito motivado e feliz.

Busquei uma foto daquele pedal e, escrevendo esse texto, fiquei avaliando a diferença entre minha aparência e, claro, todas as mudanças que aconteceram em minha mente. A mudança na aparência e, especialmente na força física, é gigante.

Minha cabeça também mudou muito, claro. Acredito ser mais racional, tenho maior poder de avaliação e respondo muito mais rápido às situações do dia a dia. Sou menos impulsivo também.

Mas identifico hoje o mesmo traço, o mesmo sentimento que me moveu a fazer aquela viagem. Meu tio Léo disse mais tarde que minhas aventuras começaram aos 8 meses, quando pulei do chiqueiro. Mini Thiago aventureiro.

Comemorei a chegada e agradeci a Deus. Aquele havia sido um dia duro para minha cabeça, pois não conseguia imprimir tanto sentido àquele caminho, o que tornou os últimos quilômetros um pouco entediantes.

Mais uma vez, cheguei sozinho. No entanto, muito feliz de concluir um pedal difícil, chegar em um lugar tão bacana, que me remete tantas boas lembranças. Alex Supertramp sabia das coisas: “felicidade só é real quando compartilhada”.

Fui comemorar minha chegada na Colorê, uma sorveteria artesanal, que fabrica variedades de sabores do cerrado, como cagaita, araticum e baru. Enquanto me deliciava, tocou uma emblemática música do Titãs:

“É que quando eu me toquei achei tão estranho

A minha barba estava deste tamanho

Será que eu falei o que ninguém ouvia?

Será que eu escutei o que ninguém dizia?

Eu não vou me adaptar, me adaptar

Não vou me adaptar!

Me adaptar!”

Obrigado a todos que acompanham.

Brasília – Pirenópolis – Jan/2014

Erro no Garmin. Texto indicando “virar para esquerda” e mapa sinalizando direita